- Para de sonhar acordada . - me balançava. - A gente não tem tempo pra sonhar em vir no baile enquanto estamos o planejando.
- Por que não? - questionei irritada. - Só porque estamos por trás, não poderemos aproveitar?
- Estamos por trás, por que ninguém quer nos trazer como par.
- Erro seu!
- Alguém te chamou? - ela perguntou curiosamente irônica.
Mordi os lábios pensando se deveria ou não mentir.
- Eu sabia. - se recostou na cadeira de novo. - Viu ? Ninguém quer nos convidar para o baile, por isso somos as organizadoras e viremos sozinhas.
Bufei e cruzei os braços. Isso não estava certo. Era o nosso último ano, deveríamos curti-lo e não nos preocuparmos com esse tipo de coisa.
- Volte a cortar as estrelas, depois a gente sonha um pouco.
Fiz o que me foi mandado, mesmo contrariada. Ao terminar o que tinha a fazer, peguei minhas coisas e fui embora revoltada. É injusto a forma que o mundo funciona. No corredor eu acabei encontrando , o menino que gostava a anos e que infelizmente nunca me olhou da mesma forma.
- Oi . - ele me cumprimentou e essa era o máximo de palavras que ele e qualquer outro ali dirigia a mim.
- Oi. - respondi e apertei a alça da minha bolsa.
Parei por um segundo de andar e mordi os lábios, ponderando se deveria ou não tomar uma atitude. Eu já tinha o não. Talvez conseguisse um sim.
Abri a boca para falar alguma coisa, mas quando me virei, ele não estava mais lá. Suspirei e voltei a andar. Talvez seja um sinal de que eu deva me manter no meu lugar.
Fui direto para casa, praticamente correndo. Estava cansada e só queria minha cama. Teria chegado mais cedo em casa se não fosse aquelas crianças malditas perturbando de novo a casa da Sra. Huang, minha vizinha da frente.
- Eu não já falei pra vocês pararem de vir aqui!? - gritei para crianças que jogavam ovos podres na frente da casa da idosa. - Vou dar três segundos pra vocês saírem daqui. Um... Dois... Trê... - antes de terminar todas as crianças haviam sumido.
- Obrigado menina , não sei o que seria de mim sem você. - Sra. Huang falou com seu jeito delicado que lembrava minha falecida avó.
- Que nada Sra. Huang, não fiz nada demais - era comum tal situação, as crianças da rua sempre pregavam peças na senhora. Elas alegavam que a Sra. Huang era uma bruxa e eles como heróis deveriam proteger a rua da Malévola. - Agora, a senhora poderia me arrumar uma vassoura, uma pá e um pano de chão? Vou limpar isso pra senhora.
- Você é um anjo, menina.
Não demorei muito limpando a frente da casa, mas fiz o suficiente para me sentir cansada principalmente pelo fato de ter trabalhado na organização do baile.
- Terminei Sra. Huang. Então eu já vou indo... - falei pronta para finalmente ir para minha casa tomar um banho, que depois de tudo isso eu realmente precisava.
- Espere menina! Eu tenho um presente pra você. - a mesma vinha trazendo nos braços uma caixa preta. - Isso é para você, por ser essa menina tão incrível. Você merece ter todos os seus desejos realizados.
- Ahhh obrigado, eu não sei o que dizer. - tomei a caixa em minhas mãos. Não era um embrulho muito grande mais era bastante bonito. - Obrigado...
- Não abra! Abra apenas quando estiver no seu quarto, sozinha. Saiba foi um presente dado com muito amor...
Assenti e sorri, agradecendo mais uma vez. Voltei para casa, ninguém havia chegado, corri para o meu quarto e deixei a caixa de lado, peguei minha toalha e fui direto para o banho.
A caixa preta estava em cima da minha cama. A desembrulhei e abri, primeiro tinha uma carta que cobria três velas e um papel de listagem, junto a uma caneta.
“Olá .
Conheço seus desejos e como presente queria concedê-los à você
Até à noite de Halloween você tem direito a fazer três pedidos.
Peça com cuidado, pois os mesmo só duraram até à meia noite do dia trinta.
Escreva cada um numero da lista e quando quiser que ele se realize, acenda a vela com seu respectivo número e a apague após repetir seu pedido.
Boa sorte ”
Fiquei olhando para a caixa com vontade de rir. A Sra. Huang devia estar brincando com a minha cara. Não era possível aquilo se tornar realidade. Esse tipo de coisas não existe. Larguei tudo no criado mudo e me joguei na cama.
- Acho que a Sra. Huang está ficando louca... - olhei para caixa mais uma vez. Já que ela fez com tanto carinho, resolvi entrar na brincadeira.
Bufei e peguei a caneta e a folha. Pensei por um segundo em tudo o que eu queria. Era muito coisa e eu só podia escrever três. O que era mais importante no momento? O baile!
1 - me chamará para irmos à um encontro
2 - Ele me pedirá para ir ao baile com ele
3- ....
E qual seria meu último desejo? Pensei por vários segundos e finalmente decidi, o escrevi e sorri satisfeita. Peguei a primeira vela e acendi com um do palitos da caixinha de fósforo que veio na caixa.
“Repita o desejo e a sopre, até meia noite ele se realizará.” Tinha escrito no verso do papel de listagem.
Olhei ainda em dúvida se deveria acreditar, mas o fiz, não tinha nada a perder, iria me humilhar sozinha, ninguém estava me vendo mesmo. Tudo é só uma brincadeira...
(...)
Fechei a porta do armário e olhei ao redor. O corredor estava quase vazio, estava parado no fim do corredor, cercado por seus amigos.
Suspirei e comecei a andar até ouvir meu nome ser chamado num quase grito. Me virei e minha respiração parou por um segundo, era ele.
- Posso ajudá-lo? - perguntei trêmula.
- Sim. - ele sorriu. - Você já tem um par para o baile de Halloween?
- Eu? - apontei para o meu rosto e ele assentiu. - Eu... Eu... Eu não. - engoli em seco.
- Ah... E você... Gostaria de ir comigo? - pisquei varias e varias vezes sem acreditar.
Era o meu pedido certo? Ele estava se realizando mesmo? Fechei a boca e assenti várias vezes, ele sorriu e abanou o cabeça.
O sinal tocou e eu fiquei com medo de aquilo ser tudo parte da minha imaginação, mas ele continuava ali.
- Preciso ir para a aula. - ele pegou a minha mão. - Nós vemos por aí...
- Sim... - forcei minha voz a sair.
Ele saiu e eu fiquei alguns segundos parada tentando entender tudo que havia acontecido. Balancei a cabeça e fui direto para a sala, onde encontrei e lhe contei tudo o que se passou.
- Como assim o te convidou pro baile!? Ele não ia com aquela menina da turma dele? - me atropelava com palavras.
- Sim, ele me chamou. Eu tô tão feliz. Vamos passar a noite inteira juntos, tenho certeza. - mesmo que a fosse minha melhor amiga não podia chega para ela e dizer: Eí! Minha vizinha da frente é uma bruxa e me concedeu três desejos.
- Um concelho, se produz um pouco mais...
- Você tá dizendo que eu sou feia?
- Não, tô dizendo que você é desleixada mesmo. - confesso, não sou o ser humano mais paciente quando a questão é moda e afins. - Você poderia ir no salão, no shopping, bate a gilete no box...
- Mas ... - tentei continuar a frase mas ela não permitiu.
- Nem vem com essa... Eu vou marcar pra você um salão, vê se depila tudo hein?!
- Tá! - falei tentando abaixar sua voz.
- Que incrível! Minha amiga tem um par para o baile.
Ela passou o resto da aula enchendo o meu saco e me cutucando, ora mostrava um vestido, ora maquiagem que eu devia fazer.
Finalmente o último sinal batera e eu corri para casa, queria que meu segundo desejo se realizasse logo.
Peguei a vela com o respectivo número, risquei o palito, repeti o desejo e soprei. Eu estava animada, mas não queria que demorasse até amanhã para que ele me chamasse para um encontro.
Guardei a caixa debaixo da minha cama e ouvi meu celular apitar, era uma mensagem de .
Está livre amanhã à tarde?
Sim… Porque?
Gostaria de ir ao parque temático comigo?
Claro! Depois da escola?
Sim… Te vejo na saída.
Lá estava de novo meu coração batendo sem ritmo algum, sentia meus dedos tremerem e um sorriso habitava meus lábios.
(...)
- Você já decidiu com qual fantasia você vai? - o garoto perguntou dando uma colherada no nosso sorvete de casal.
- Ainda não... - olhei para a vitrine de uma das lojas. - Eu tinha até pensando em não ir de fantasia.
- É uma festa a fantasia! - ele rebateu. - Eu ainda não decidi também. - ele apontou para duas orelhas que estava penduradas. - Podemos ir de gata e cachorro. - ele apontou para cada um de nós ao falar os personagens.
- Por favor... - revirei os olhos. - Isso é sério? Você quer ir de fantasia de casal?
- Sim.
- Devemos ir com alguma coisa assustadora. Por exemplo o Chucky.
- Certeza? As roupas são curtas... - dei de ombros e ele sorriu. - Que tal Viúva Negra e Capitão América?
Assenti e fiquei sorridente. Fomos em vários brinquedos que podíamos, ele me fez ir várias vezes no barco Viking, passamos a tarde entre risos e brincadeiras. Seguramos as mãos enquanto andávamos e ele me abraçava por trás quando estávamos nas filas.
Ele comprou orelhas de bichinhos para usarmos e todos nos encaravam como se fôssemos um casal. Ele não parecia ter vergonha alguma por mostrar que estávamos juntos.
(...)
- Eu já to cansada de te ouvir falar ! Dá pra parar? - falou já irritada.
- Mas ele foi tão fofo... - suspirei.
- CALA A BOCA! - ela praticamente gritou. - Chega . Eu sei que ele é fofo e etc... Mas chega de falar. Quando vai ser a minha vez?
Emburrei e fiz bico. Eu estava animada, queria falar daquilo só duraria até o fim do dia, queria aproveitar tudo até o último segundo.
- Tá bom. - cruzei os braços. - Fala.
Minha amiga continuava em silêncio. Sabia que ela estava brava comigo e iria ficar fazendo birra até eu convencê-la a falar.
- Pronto . - a maquiadora sorriu para mim e eu me olhei no espelho. A maquiagem estava perfeita.
- Já podemos ir. - falou pegando o celular. - Meu pai vai nos levar pra escola. - essas foram as últimas grossas palavras que eu ouvi da minha amiga até chegarmos à escola.
havia se oferecido para me levar até o colégio, mas eu tinha que chegar mais cedo e ficar com os outros organizadores do baile.
As pessoas aos poucos começaram a chegar, alguns alunos me elogiaram e disseram que quase não me reconheciam, talvez pela forte maquiagem e as roupas coladas de couro.
- Tínhamos que ter chegado juntos. - me abraçou por trás, assustando a mim e meus amigos.
- Eu já falei... - me virei para ele, que sustentava um grande sorriso por trás da máscara que cobria metade de seu rosto.
- Eu sei. - ele beijou meu pescoço. - Posso te roubar um segundo? - ele entrelaçou nossos dedos e começou a me puxar até as escadas de segurança.
- O que foi? - perguntei ainda correndo atrás dele.
Ele nos parou e me prensou contra a parede. Nossas respirações estavam ofegantes, passei a língua pelos lábios e o olhei intensamente. Em segundos ele nos selou, nossas línguas encontraram um ritmo próprio e delicioso, suas mãos começaram a passear pela lateral do meu corpo até eu nos separar implorando por ar.
- Nunca pensei que fosse dizer isso... - falou enquanto mexia em meus cabelos. - Eu acho que gosto de você .
- Como... É...? - as palavras saíram falhadas. Não esperava ouvir isso, será que ele realmente gosta de mim ou isso é apenas fruto do desejo? Isso estaria incluso no meu último desejo feito hoje à tarde? - Eu também gosto muito de você. - selou nossos lábios em um beijo doce e meigo, mas não por muito tempo.
Nossas mãos criaram vida própria e começaram a correr por nossos corpos, procurando intensamente por maior contato. Suas ágeis mãos correram para o zíper da minha roupa, logo o abrindo e abaixando a peça até minha cintura. Seus lábios desceram até o meu pescoço, me fazendo tombar a cabeça e lhe dando livre acesso à área.
Coloquei minhas mãos em seu pescoço e ele continuou a descer seus lábios pelo meu colo, suas mãos começaram a me estimular ainda por cima da roupa.
Mexi os quadris causando maior atrito e arrancando um gemido baixo da minha parte. Suas mãos adentraram minha calça, me fazendo arrepiar e arranhar seu pescoço.
Seus lábios desceram pelos meus seios, e seus dedos me invadiram, arrancando um longo suspiro meu. Nenhuma palavra que saia pelos meus lábios podia ser entendida, mas aquilo era novo para mim, eu não sabia como reagir e tudo que saia era espontâneo.
Senti meu interior se contrair e mordi os lábios, reprimindo um gemido alto. Minhas pernas amoleceram e eu me apoiei em seus ombros, minha respiração estava falha e meus olhos ainda fechados.
- Acho que... - ele não pode terminar a frase, a porta que dava acesso as escadas foram abertas, nos olhamos rapidamente e ele saiu correndo me puxando pela mão.
Paramos alguns lances mais acima, fechei minha roupa e fiquei o olhando, ele estava fixo na porta que irradiava a luz para dentro do pequeno lugar.
- Temos que subir mais... - ele segurou minha mão e voltou a subir correndo, mas tropeçou no próprio pé e caiu, antes batendo a cabeça no corrimão.
Corri para perto esperando que ele se levantasse, mas não o fez. Ele estava desmaiado, em sua testa tinha um corte que saia sangue.
Me desesperei sem saber o que devia fazer. Peguei seu celular que estava em seu bolso da fantasia, precisava ligar para alguém, mas no momento que vi o horário, tudo foi explicado. Meus olhos se encheram de água e coloquei seu cabeça nas minhas pernas.
- ! Por favor ! Acorda! Eu não quero mais desejos, não quero nada disso. - "Os desejos durarão até a meia-noite de Halloween" as palavras da Sra. Huang vieram em minha mente. Olhei o horário no celular. Apenas um minuto para meia-noite. - Por favor volta no tempo. Eu não quero nada disso. Não preciso de encontros. Preciso que você fique vivo e bem... - abaixei a cabeça chorando.
A luz que entrava pela porta ficou ainda mais clara e como num flash, eu estava de volta à varanda da Sra. Huang. Não havia mais sangue nas minhas mãos, estava apenas a caixa preta que deu origem a tudo isso.
- Ainda quer realizar seus desejos menina? - a senhora perguntou com um sorriso no rosto.
Meus olhos ainda estavam marejados e demorei alguns minutos para entender tudo o que acontecera.
Tudo tinha sido tão real. Nossos beijos, toques e até o cheiro, eu podia lembrar de cada momento. Não podia ter sido um simples sonho.
- HEY ! - gritou entrando na rua. - Bom dia sra. Huang! - minha amiga sorriu para a mais velha.
Ela não estava brava comigo? Só eu lembrava de tudo? Isso não podia acabar assim! Senti um nó na garganta, eu queria chorar e voltar no tempo.
- Vamos pra escola bobalhona.
- Mas está de tarde! - rebati.
- Tá doida? Ainda não se recuperou da festa?
- A festa? Já aconteceu? O que aconteceu?
- Você não se lembra de nada mesmo? Bebeu tanto assim?
- Eu não bebi!
- ... Você bebeu, muito! Deu meia noite você veio pra casa, não ficou nem até a metade da festa.
- Como assim?
- Você ficava repetindo que deveríamos ter um par e usarmos fantasias de casal, mas os meninos são uns idiotas e só querem as meninas lindas e magras. Você estava bêbada.
- Nem tinha bebida.
- Tinha sim gatinha. - ela sussurrou. - Vamos pra escola?
- Vá querida, você tem muito a estudar. - minha vizinha piscou e entrou para sua casa.
Assenti ainda meio atordoada, ela me puxou pelo braço e continuou a falar animadamente sobre a festa e como todo mundo havia curtido.
- ? - uma voz conhecida me chamou, eu e nos viramos juntas e eu quase cai de costas quando vi quem era. - Pode parecer meio estranho... - ele se aproximou do meu ouvido e eu arrepiei por completa. - Ou até mesmo uma cantada ruim... Mas eu sonhei com você noite passada.
- Você...? Comigo? - ele deu de ombros e saiu correndo de volta para seu grupo de amigos.
- O que foi isso? - perguntou segurando meu braço.
Fiquei uns segundos olhando para o chão e tentando entender tudo. Meus pedidos causaram uma briga entre eu e minha melhor amiga, mas ela foi a única que pessoa que continuou ao meu lado depois de tudo. Ela era a única coisa real que eu tinha, todo o resto fora inventado pela minha cabeça.
Sem falar nada, apenas me virei e a abracei, ela achou estranho mas retribuiu rindo.
- Obrigada . - suspirei.
- O que aconteceu?
- Eu te amo. Obrigada por ser minha amiga. - olhei uma última vez para trás, me olhava de soslaio.
- Ixi ficou doida. - ela riu e começou a me puxar para a sala.
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